sábado, 12 de fevereiro de 2011

Conektarse


 
                             Ao acordar um novo dia__________uma nova luta se inicia em busca do sólido entendimento da vida____________Para que sirvo? O universo acolhe enquanto tiros  das metralhadoras invisíveis perfuram o corpo do ser em estado de criação
Chamas flamejantes________ lúdicas janelas cenográficas no abismo do cotidiano mórbido
Risco constante nos lábios carnudos das perguntas_________uma ponte que se atravessa sem enxergar seu finito______desejo de ir mais longe com peixes nos olhos
Saudando a vida com declaração de amor_______ palavras imagens colorindo o existir.

 

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Infrutescência: Conjunto frutífero resultante de várias flores.




“Infrutescência” também é o título do livro de poemas de Helena Soares que deu origem no roteiro  para criação de um espetáculo teatral de mesmo nome. A obra e seus versos são construções poéticas que contém a força, a cultura, a história e a vida suada do povo de Minas Gerais e do povo do cerrado  brasileiro.

O espetáculo “Infrutescência” faz um paralelo entre as linguagens do sertão mineiro e do caos urbano, através de sons, palavras e objetos, buscando musicalidade, poesia e afinidades culturais existente entre as mineirices da duas realidades distintas. O espetáculo é resultado de uma pesquisa da linguagem performática, utilizando recursos audivisuaisl e do teatro de formas animadas para apresentar o universo do norte mineiro a partir de uma mulher que se reinventa ao ganhar um livro.  No texto, Helena fala da mulher contemporânea e suas inquietações, seus desejos, sonhos e dúvidas, seja ela urbana ou sertaneja. As duas obras fazem um mergulho no sertão mineiro trazendo à tona imagens, sentimentos, fragmentos de memórias vividas e observadas pela autora. Ruminando inquietações, ela diz: ‘‘A palavra não é só a grafia, é antes o desejo de ser, de existir’’. O espetáculo ‘’Infrutescência’’ revela em cena a poesia de personagens que dialogam com o espaço/tempo. Cada personagem sugere uma reflexão ao passo em que se aproxima e distancia o mundo urbano do mundo do sertão.















Do Livro ´´Infrutescência´´ de helena soares

Anjo

Sem falar de mim sendo eu {quase nós}
Com essa consciência de amolar faca
Esse nariz farejando olhares furtivos
Boca {Lábios em direção desejados}
Mãos {dedos massageando palavras} soltando papagaios {outras línguas}
Beijo em qualquer lugar do corpo ou mesmo na alma alivia {acalma}
Essa fúria____________ ânsia no vazio do espaço imperfeito
Torto anjo de barro tonto  
Manipulado amassado {admirado de mãos em pés} até orações
Esse estado emudece {dilacera}
Esse dia que traz lembranças

Nem um amor de verdade

Nem um beijo de tirar o fôlego

O anjo caiu e quebrou

                                             _________________________________________________________________


Silêncio_____ ouvidos em busca de ar  Um corpo contor________  Cendo  formas  Cores  hormônios variáveis  Humores  Rumores  Suor  som de mar
Pios  pilares  vácuo no abismo do silêncio   Tátil a sensação de escutar  Mar ainda o corpo de escama  Põe-se a respirar  Essa sereia carrego fora d'água em ombros que guardo caudas enormes  Voz que quer cantar  Bonitos moços na beira do mar beijar  É nessa água que me contenho   contor________ So_______u de azul e estrelas   Tua__________  Decifra-me

 

 De mim mesma

Meu coração reclama o que me separa dos que amo de verdade
Deus me deu treze irmãos vivos
Alguns se foram e os que ficaram... Um abraço sufocado no peito grita esse amor que não se concretiza  Nem de perto  Nem de longe
Oito mulheres e cinco homens  mais um que minha mãe pegou para criar

Mangas maduras comidas no pé
Horas sem contar no relógio ouvindo o murmúrio do vento nas folhas
Visto de longe o gado rumina o pasto de minha alma
Brancos no sol de fazer pensamentos
O arrozal dança e convida para a vida
Leio livros de ouro nas asas dos mil pássaros
A respiração esvai-se num único e harmonioso tom musical
Sussurro do universo querendo-me inteira para realizar sonhos

 Busco

A palavra habita minha existência
Penso nela como um amor platônico
Fico horas a pão e água imersa neste universo sutil
_____________________________________________mágico
Desfiles em saias rodadas
Vestidos decotados em lânguidos corpos de significados exóticos
Respiração profunda
Um peixe nada tranqüilo no líquido amniótico
Meu útero se parte multiplicando a beleza {saudando a vida}
Uma flor de perfume nunca sentido antes
Um amor sem fronteiras querendo encontrar sua metade imperfeita
Pequenos frascos
Febril
Feérico
Fecundo
Procura-se


 __________________________________________________________

Ruminar não é coisa só de Gado...
Prato de comida na mão
 Olhos fixos no tempo de ninguém
Se pensava ou só ruminava?
A boca mexia mobilizando um conjunto de músculos autômatos
Uma tristeza de ser aquilo que se era...
Se alimentava ou só comia?
Olhando era um réptil desses pré-históricos
Sem interesse pela vida moderna
Se vivia ou só estava viva?
Cansada de ruir 
Uma pessoa roendo a vida

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Essa vontade de saber Esse tempo que passa___________leva os dias contados marcados em relógios de parede  Esse mel que lubrifica a garganta  Esse suspiro que sai do fundo do peito em êxtase extremo  Essa cara que tenho modifica sem que percebam  Esse dia que eu não sou eu  Essas fotos que  estou alegre  se triste sorrindo assim mesmo pra não ficar feio  Esse jeito de viver que não muda  Essa boneca esquartejada cabeça quebrada braços  pernas perdidos na caixa de brinquedos  Esse quebra cabeça interminável  Mudo de fazer dó  música  poesia  cinema:Esse sonho vagaroso que corroe entranhas  Essa visita na morada dos rins  Coração que fosse não aguentaria tanta emoção  Esse eu perverso de sentimentos e palavras em uma só letra H



Nada
   O que não mais é e tem que ser
O que não se quer e é seu
                     O que deixou de existir e não se foi
           A solidão


                             Ventre
Consciência de existir com choro e reclamação
Pratos  Panelas
Brinquedos no chão
Em toda parte você
Fragmentos  Fotos  Quimera
Casa marido filha e eu?

Dias de chuva   Dias de sol

Passeios    Trepidações
A vida anda...

 

Paciência

Adivinhar linhas das mãos...

Evidenciar o caos...
Morder as partes moles da boca...
Revirar os olhos...
Formigar  língua pés  orelhas...
Esperar passar o feriado
Amolecer o corpo...
Cuspir sangue...
Respirar as horas...
Frio nos pés!
Músicas vindas de fora
Teto baixo  cor suja  dores na alma
Ventre de aço
Os sapos não cantam sem água
Nem nós
Vozes ecoam do rádio
Do jornal letras
De mim sombras!
Nada nada  nada
Nem eu nem tu nem nós...só
Infinito deserto...
Unhas em crescimento
Cabelos grandes... Miolo
Falta memória é tristeza!
Nada nada nada...

 helena soares

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Aula de iniciação teatral na Cia.Acômica de portas abertas para a comunidade. Prof: Helena Soares.

  
Início do túnel___________ Luzes___________ estamos caminhando ainda, não terá final.
Primeiro a curiosidade, o burburinho aquecido das novidades.
Estamos nos apresentando. Somos somente qualidades. Os defeitos virão à tona.
Nomes, rostos, mãos, pés, vozes, tamanhos, cores, cabelos, tudo diferente.
Um poema é lido quando um cordão colorido nos une em costura de nomes e silêncios até formar uma rede de contatos, qualquer movimento transmite vibrações comunicativas.

Nome, qualidade, objetivo. A voz quase não sai.  Olhar ainda tímido, outros exagerados mostram que são expressivos e esbanjam expressões com largos gestos.
Alguns querem ser estrelas, outros conhecer mais sobre teatro.

No primeiro momento temos uma sala cheia com 26 pessoas, no decorrer dos dias alguns faltam e outros chegam. Muita energia.
A arte de criar é inerente ao ser humano, ele precisa de um espaço para mostrar seus experimentos, ser visto, aplaudido pelo outro da sua espécie.

Exercícios de entrosamento. Muitas manifestações de alegria. Jogos, movimentos em grupo e individual, cenas, vão mostrando as facilidades e dificuldades de cada um. Como se conter neste turbilhão de impulsos criativos? Todos querem falar, mostrar seu movimento, sua cara, seu canto.

Primeiro sem fala, vamos deixar a fisicalidade aparecer. Impaciência, gestos de fácil comunicação. Há necessidade de ser entendido imediatamente. Os questionamentos, as curiosidades.

Exercícios sensoriais. O outro já existe enormemente e me reflete, posso sentir a densidade do ar, meus pés sentem o chão que piso, vejo com mais detalhes, estou mais receptivo com o outro, posso trocar mais suavemente. Estamos mais abertos.

Jogos, improvisos, cenas. Eu posso falar. As possibilidades foram ampliadas, a visão das composições, a exploração do espaço, o que o outro representa o que eu represento,
Conjunto de informações para corpo e mente ____________ diálogos com a natureza simbiótica do ser e sua habilidade natural___________ A criação.


Helena soares, Atriz, poeta e professora de teatro
BH, 28 de junho 2010












Manoel de Barros
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios."




sexta-feira, 30 de abril de 2010

Teatro faz bem para a saúde do planeta.







“Eu mudo de idéia, eu não afirmo nada,
tudo pode mudar de uma hora pra outra (...).
Eu disse que as coisas são de um jeito
mas podem ser diferentes.”

                     Amir Haddad
Grupo de teatro: Tá na rua.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Nasci de Parteira

Helena Soares aphonso-2010

Nasci de parteira. Foi na fazenda Macaúbas município de Brasília de Minas. Meu pai era de um grupo de folia, época de festas, passávamos todo o mês visitando lapinhas.
Toda casa que chegava, cantavam a música que pede licença para entrar.
Meu pai comprou outra fazenda e mudamos em carros de boi, uns oito cantando de tão pesados. Eu brincava com bonecas de pano feitas pela mamãe, brinquei muito, arrumávamos nossas casinhas na sombra dos pés de romãs. Tenho muitas irmãs. Comecei estudar em uma escola rural perto de casa, a sala era pequena, a professora dava aula no mesmo horário para a primeira, segunda e terceira série.
Eu ouvia rádio, adorava música. O terreiro era grande e limpo, quando a lua brilhava colocávamos as cadeiras no centro do terreiro, papai tocava violão e cantava com mamãe. ´´Não há oh gente, oh não luar como esse do sertão.´´Depois fui estudar na cidade, li o Admirável Mundo Novo, estudei no conservatório Lorenzo Fernandes, teatro e educação artística, escrevi poesia, fiz parte de grupos de teatro, escutei Cazuza e Raul Seixas, li Nelson Rodrigues, interpretei personagem de Jean Genet, fiz aula com Geraldo Vidigal, assisti Gerald Thomas, casei-me com o Dió, tive uma filha, publiquei um livro. Meu umbigo está solto no mundo. Sou livre posso fazer escolhas.
O teatro me trouxe o sentido da vida, os fragmentos, o lugar de ver de cima e o lugar de ver de baixo. Me mostrou um mundo mais possível, o de verdade. Foi uma escolha. ´ ´´Porque será que cuidam de você? Boa pergunta´´. Nunca tive isto, e olha que sou canceriana, sofri muito por que tive que sair de casa muito cedo, tinha que estudar, meu pai sempre fez questão, colégio e datilografia.
Gostava de ler, de sair com os amigos, recebi várias serenatas no meio da noite.
Quando cheguei em Belo Horizonte chovia, fazia um friozinho, a cidade estava com neblina meio embaçada. Achei lindo me senti confortável. Vim estudar teatro, a turma do meu grupo de teatro lá de montes claros já estava aqui, eu vim um ano depois, muitas coisas tinham mudado, depois foi a moradia estudantil Borges da Costa, ai começaram as performances, era teatro de dia, de noite. Todos os estudantes vinham nos ver na lavanderia, nos corredores, na piscina de cimento batido, respirávamos arte. Vivi intensamente, mais que isso, fiquei fascinada, me envolvi como uma criança. Tive certeza que era isso que eu queria, que eu era artista.

BH 28/01/2010 helena soares aphonso