sábado, 5 de abril de 2014

Escritas vindas de longe

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“O existir já é uma escrita”.
  Helena Soares veio ao mundo pelas mãos de uma parteira, na zona rural de Brasília de Minas conhecida como Macaúbas, no sertão dos Gerais, “longe de tudo… um lugar encantador que ninguém conhece”. Esta filha de agricultores relembra com saudade a vida simples daqueles tempos: “A casa era grande, com portas pesadas, e tinha um terreiro branco ao redor. Minha mãe punha a gente para dormir cedo e ficava no meio do terreiro cantando, e meu pai, que era cabeça de folião, tocava e cantava junto. Eu fingia que dormia e olhava escondido pela janela. Era encantador, e a lua brilhava sob os beijos”, diz a autora, perdendo-se em outras lembranças.
 Possivelmente as sonoridades daquelas noites ecoaram como reminiscências em seus ofícios de dançarina, performer e atriz, onde o movimento e o ritmo são essenciais. “Na verdade, preciso do movimento com o corpo para funcionar bem nas coisas. Então ouço música, danço, leio em voz alta, cozinho, depois escrevo”. As letras sempre a acompanharam, enquanto mudava de cidade em cidade para estudar e encontrar outras oportunidades de expressão artística, até se estabelecer em Montes Claros, nos anos 80, onde integrou o grupo de literatura e teatro Transa Poética, participando ativamente das atividades culturais do lugar.
  Alguns anos depois ela se mudou para Belo Horizonte, com a intenção de se dedicar às artes cênicas com “a escrita sempre me acompanhando, embora tenha me dedicado mais ao estudo e prática do teatro”. Estudou no Teatro Universitário da UFMG, onde entrou em contato com intelectuais, artistas e escritores. “Um deles foi meu professor, Ítalo Mudado, um apaixonado por literatura, que me apresentou Pirandello e outros autores”, configurando suas influências nas artes poéticas e nas outras também. 
  Caracteriza seu processo na escrita como uma sucessão entre observação e acumulação, onde ideia e informações podem ficar por dias “fluindo na cabeça, tentando se organizar…”. Embora diga não ter regras definidas, observa que costuma “… escrever e ler várias vezes para ver o que acrescento e o que tenho que cortar. Escrevo no caderno a mão, rabisco, reescrevo antes de digitar, mas, mesmo depois de digitado, ainda faço modificações. Gosto da genética da escrita”. E complementa: “vivo numa interação constante com esse lugar que me cabe, às vezes sim, às vezes não. O existir já é uma escrita”.

Artes a poetrizar

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“A palavra não é só a grafia, é antes o desejo de ser, existir”
A autora, que em um de seus poemas se anuncia como poetriz, se impregna de todas as artes que pratica. Helena Soares é atriz, poeta, performer, diretora e professora de teatro, formada em artes cênicas pelo Teatro Universitário da UFMG. Esta mineira do Norte do Estado lançou Infrutescência, seu primeiro livro de poesia, em 2006. A poética desta obra foi também transformada em espetáculo teatral de mesmo nome no ano seguinte, tendo esta criação, participado de mostras e leituras poéticas: como espetáculo e como escritura.
Helena Soares é também integrante e diretora da Cia.h3 de Teatro, Poesia e Outras Liberdades, onde apresenta sua poética pessoal e sua linguagem performática. Talvez por isso a autora prefira não definir um estilo para suas obras ”Isso de definir é estranho… Sou tão mutante. Definir parece ficar”, diz, completando a observação com a certeza de que prefere “as poéticas livres”. Livre como quando criança se encantava com as letras dos pedaços rasgados de jornal onde seu pai trazia as compras vindas da cidade: “Achava bonito aquele tanto de letras juntas, inventava leituras, mas não era. Então pegava um carvão e rabiscava a parede, mas não era. Interpretava pessoas falando, mas não era. Eu queria Ser…”, inspira.

Entrevista com Helena Soares, nova autora da Editora Kazuá

 EDITORA KAZUÁ – Quando você se pegou pela primeira vez se expressando em escrita? O que você acha que a influenciou a preferir essa forma de expressão artística?
Onde eu nasci era longe de tudo. Meu pai, de vez em quando, ia a cavalo até a cidade (ele saía de manhãzinha e só chegava quase de noite) e o que comprava lá vinha embrulhado no jornal, que era jogado fora em pedaços rasgados. Eu pegava aqueles pedaços e ficava namorando as letras, tentando decifrá-las. Achava bonito aquele tanto de letras juntas, inventava leituras, mas não era. Então pegava um carvão e rabiscava a parede, mas não era.Interpretava pessoas falando, mas não era. Eu queria Ser… Achava que ser era uma coisa daquele jeito escrito, mas que também continha invenções de todas as formas; podia ser de tudo quanto é jeito, era demais expressivo: eu quero ser isto.
EK – Você nasceu onde? Vive onde? Já tinha alguém que escrevia em sua família, alguém de seus contatos?
Nasci em Macaúbas, na zona rural do Norte de Minas. Um lugar encantador que ninguém conhece. A água de lá é salobra; a de beber tinha que ir buscar longe, no lombo do burrinho, debaixo do sol quente, uma labuta. Mas era bonita a estrada de mato seco e poeira. A água era degustada com gratidão. A casa era grande, com portas pesadas e tinha um terreiro branco ao redor. Minha mãe punha a gente para dormir cedo e ficava no meio do terreiro cantando, e meu pai, que era cabeça de folião, tocava e cantava junto. Eu fingia que dormia e olhava escondido pela janela. Era encantador e a lua brilhava sob os beijos. Depois meu pai teve sorte e comprou uma fazendinha lá em Mangaí, entre Brasília de Minas e Januária. Lá passa o Córrego Carrapato, que nunca nos deixou na mão; nem que for um fiozinho de água na seca ele mantém jorrando. Um herói. Fizemos a mudança em carro de bois, em cantoria, numas estradas em que nunca tinha passado. Eu tinha 9 anos, percebia a mudança dentro e fora de mim. Outra casa, outras pessoas, outro vento, e o pé de manga coco que passou a ser meu lugar de ver e ser. Depois fui morar em Angicos de Minas (um povoado) para estudar. Primeiro fiquei na casa de minha avó, gostava de ir catar algodão com minhas tias; depois fui morar na casa de um primo e tudo ficou sem sentido. Minha mãe me ouviu e me levou para morar em Brasília de Minas com minhas irmãs, também para estudar. Tudo novo. Eu tinha vergonha, a cidade me oprimia, tudo era meio proibido; ter muitos modos, respeitos, deveres sem direitos a quase nada. Na biblioteca da escola nem todos entravam. As salas eram divididas por letras que determinavam classes sociais aceitas ou não: A – os riquinhos filhos de Dr. Fulano; B – os pobres que eram mais ou menos inteligentes e tinham notas boas e; C – os pobres coitados que vinham da zona rural e das periferias. Eu pensava muito desde pequena e sofria com injustiças. Ficava muito angustiada e escrevia; era um desabafo que logo era rasgado e jogado fora. Com o tempo me acostumei e ganhei a cidade com minha simpatia de sorriso largo. Entrei para o grupo de jovens, comecei a fazer teatro com José Edward e Ricardo César e montamos um grupo que encenava peças escritas e dirigidas por José Edward. Começamos a fazer eventos culturais na concha acústica uma vez por mês, onde tinha teatro, música, feira de artesanato e muitos amigos. Desse movimento cultural saiu uma coletânea da qual participei com um poema ingênuo. A cidade estava pequena, eu precisava seguir e fui para Montes Claros. No Conservatório Lorenzo Fernandes, fazendo educação artística, comecei a ter aulas de teatro com Liana Menezes. Ela me colocou em contato com os escritores Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst, Pina Bausch(bailarina). Entrei para o grupo de teatro Diga que não me conhece e montamos “Hoje é dia de Rock”, de José Vicente, na qual eu fazia a sonhadora Izabel e  “Os filhos de Kenedy”, na qualeu fazia a hippie, com direção de João Batista Costa.Mudamos a estética teatral de Montes Claros. Quando houve um esvaziamento, fui para o grupo de teatro e literatura Transa Poética. Encontrávamos-nos para fazer trabalhos corporais de yoga, ministrados por Renilson Durães, ler poesias de grandes poetas contemporâneos ou não, e a proposta era cada um trazer seus escritos e ler para os outros. Assim, comecei a ter coragem de mostrar meus escritos fui lapidando, me soltando, gostando e escrevendo cada vez mais. Ali, daquele grupo, surgiu o Psiu Poético, um festival de poesia que nos aproximava e alimentava de possibilidades com experimentos, exposições de poesias no salão, onde eram lidas, trocas com outros artistas, poetas e a comunidade. Depois fui estudar teatro em Belo Horizonte, no Teatro Universitário da UFMG, onde entrei em contato com intelectuais, artistas, escritores, um deles foi meu professor Ítalo Mudado, um apaixonado por literatura, que me apresentou Pirandello e outros autores. Então minhas influências foram se configurando e assim continuam, não só na poesia, mas em todas as artes. Meu pai estudou com professor particular, tem uma letra linda e sempre nos incentivou a estudar. Minha mãe gosta de ler e contar histórias; sempre reclamou que não tinha terminado o colegial porque os pais dela ficaram doentes e ela teve que cuidar deles. Sim, eles me incentivaram. Eu queria vencer o desafio do semianalfabetismo.
EK – O que te inspira e te impulsiona a escrever?
 A vida, a natureza do existir, as coisas, as cores, os objetos, o movimento, a respiração.Está tudo diante de nós, na nossa cara, e ainda se transforma o tempo todo para ficar menos monótono. Vivo numa interação constante com este lugar que me cabe, às vezes sim, às vezes não. O existir já é uma escrita. Quando escuto, engulo alimento que interage com outras experiências, minhas e de outros, para uma escrita em diálogo permanente com o cosmos.
EK – Como você define o seu estilo de escrita?
 Isso de definir é estranho.Sou tão mutante; definir parece ficar. Gosto de ser flexível, água corrente… Mas penso em poéticas livres.
EK – E seu processo de escrita? Tem horário certo ou não, anda com caderninho no bolso, como funciona isso?
 Vou acumulando, como faz a Trisha Brown (bailarina). Às vezes acontece de ficar por dias com várias informações observadas fluindo na cabeça, tentando organizar; às vezes acontece uma emergência e anoto.Não tenho regras definidas.O processo é de observação e acumulação mesmo. Depois, escrever e ler várias vezes para ver o que acrescento e o que tenho que cortar. Escrevo no caderno a mão, rabisco, reescrevo antes de digitar, mas mesmo depois de digitado ainda faço modificações. Gosto da genética da escrita.
EK – Quais autores a instigam e a inspiram na hora de escrever? Quais autores você lê? Outras artes, além da literatura, te inspiram para escrever?
 Na queda se cata o que se pode; o que fica é aquilo que te impulsiona, te possui, fortalece.Eu lia assim, o que me emprestavam, o que estava disponível naquele momento, e numa dessas caiu em minhas mãos o Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley; Eu, de Augusto dos Anjos;Soroco, sua mãe, sua filha, de Guimarães Rosa, e esses livros todos que se lia na escola.
Todas as outras artes me inspiram para escrever quando me tocam no fundo da alma, o teatro, a música, as artes plásticas, o cinema em especial me deixa de cabeça para baixo.
Os autores que gosto e me fortalecem são Clarisse Lispector, Artaud, Gorki, Plínio Marcos, Nelson Rodrigues, Mário Quintana, Cora Coralina, Wilmar Silva, José Inácio, Marli Froes, Laís Eveline, Cecília Meireles, Shakespeare, Anton Tchecov, Pirandello, Manuel de Barros etc.
EK – O que os leitores podem encontrar no teu livro? Do que ele trata?
 Este livro é uma reunião de textos como se fossem vários livros dentro de um só; ele é um desejo de expandir sentidos por meio da palavra, que ao ser lida, modifica-se pelo poder das experiências pessoais. O leitor vai se identificar com aquilo que nos é comum: a vida e a morte.
EK – O que te atraiu no trabalho da Editora Kazuá para você publicar seu livro conosco?
 Foi o contato direto, o fato de ter me ligado para conversar, querer pensar e estudar a obra e o escritor antes de publicar. Esse cuidado com o autor e sua obra nos coloca num lugar sensível e confortável, visto que as vulnerabilidades são muitas.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Um dia daqueles!
Este era um dia daqueles que se acorda e não se quer levantar , quando levanta, tudo parece ter parado, sabe-se que há compromissos. A lentidão é tanta (os detalhes) que quando se percebe já se passaram 15min só na escovação diante do espelho.
Tinha marcado dermatologista, era dia de avaliar o exame da biópsia, e ver o que poderia ser feito com aquela indesejada mancha de sol que a deixava deprimida ao olhar no espelho.
Já estava atrasada. Mas os detalhes lhe chamavam atenção: um pano dependurado no prédio em reforma lembrava um navio pirata dos filmes de aventura, uma curva do prédio de Niemayer era um piano, uma música que saia de um restaurante, as cores, as pessoas, tudo parecia estar em 3D, e estava, porque a vida é 3D, nós é que não percebemos, mas sim, tem dia que a vida se encarrega de nos colocar neste lugar de pertencimento.
Tinha que andar mais de pressa, a rua era numa estrutura elevada, uma subida íngreme, teve que se esforçar mais um pouco, estava suando e com a respiração um pouco ofegante, o sol estava quente, esgueirou- se para o lado direito onde tinha uma árvore com sombra, foi quando olhou para o chão e viu um beija flor, seu movimento era mínimo com uma respiração fraquinha, pegou-o nas mãos, soprou devagarinho, conversou com ele levando-o ao rosto. Falou baixinho: vai ficar tudo bem. Mas não sabia ainda o que fazer, pensou mil coisas em instantes, o médico que não podia perder, o livro na editora, a filha de férias na casa da avó, a vida sem ajuste, a demora nas respostas, a visita a amiga que estava com câncer, como aquilo tinha mexido com seu modo de sentir o mundo, e mais, em fração de segundos, com aquele serzinho em respiração quase finda. O que será? Um desmaio, um mal estar, um descuido de um beija flor no meio da cidade?  Deu um giro em volta de si mesmo, saiu andando para trás, viu um bar. Foi entrando com as duas mãos em concha sentindo o calorzinho do corpo do beija flor desfalecido, foi aí que apareceram três crianças. Ela: Um beija flor, preciso cuidar dele. Logo um moço que estava no balcão veio já com um pouquinho de água, colocou na cabecinha dele.   Agora eram cinco cabeças voltadas para a mão em concha, ele respirava levinho e movimentava a asinha: será que ele vai ficar bem, eu tenho médico, estou atrasada, achei-o ali no chão e queria que cuidassem dele. Ele: sim vamos cuidar, depois a gente solta, as crianças ao redor só riam e olhavam admiradas. Ele: pode ir tranquila.
As crianças estenderam as mãos, ela colocou o beija flor e saiu apressada, sem pensar mais nada até chegar bem atrasada no dermatologista. Quando tudo terminou fez o mesmo caminho de volta, até o local do acontecido. Para sua surpresa estava fechado. Tinha gravado aquela cor da porta, era azul celeste, estranhou ao encontrar uma porta alaranjada. Ficou reproduzindo os movimentos, as imagens, as vozes, os olhares, se lembrou de uma coisa, o moço que estava no balcão que veio com um pouquinho de água tinha dito: sim vamos cuidar, depois a gente solta aqui no bosque, ele vai ficar bem.
Foi ao lado perguntar,  disseram que estava fechado há muito tempo, ela disse que não, que  tinha estado lá naquela manhã, contou o caso do beija flor, das crianças... Ficaram olhando desconfiados.
- Aqui não pode ter sido moça.
Ela saiu meio zonza, em direção a sua casa, precisava ler, botar as pernas para cima, depois dormir mais um pouco, foi o que fez.
Daquele dia em diante ela passava sempre neste local e estava lá a porta fechada. Até hoje ela pensa no beija flor, naquelas crianças e aquele moço generoso. Para onde será que eles voaram com seu pequeno beija flor?

Helena Soares - 28/01/2014
Cia.h3 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Azul turquesa
Vestida de azul turquesa se sentia iluminada, poderosa, estava com determinação de cores, o azul turquesa estava impregnado na alma, a camiseta estava suada, tinha que trocar, só tinha aquela desta cor. Muitas coisas para resolver, ainda bem que é determinada, quando se propõe fazer uma coisa não tem sofrimento que a impeça, e hoje acordou com o sol. Conferiu os papéis, documentos, fez um lanche reforçado, rezou, agradeceu conferiu o endereço e saiu. A rua é longa dá tempo ver, olhar, ouvir, pensar e foi assim:
Do Tempo que estava só, mesmo tendo gente por perto, as conversas não chegavam, eram vazias, o café da manhã que ela tanto gosta tomava sozinha.
A família que nunca demostra amor, mesmo ela procurando, criando e abrindo possibilidades de afetos. O que é o amor em família? Algumas palavras são fictícias: amor, amizade, solidariedade, gentileza etc. São palavras de uma força enorme, mas, sem ação não são o que representa. Bom mesmo é rua, ela está lá e existe, com gente andando nela ou não, mesa, cadeira, casa, garrafa, xícara, céu, nuvem, coração, olhos, palavras que são sem precisar de ação devem ser feliz.
Continuou andando, no sol, contando os números 195, 196 até chegar no 2.024.
 Não tinha fila, uma recepcionista pediu para preencher uma ficha, que logo seria atendida.
-Eu posso tomar um café?
-Claro, fique a vontade.
Logo um homem se aproximou de mãos estendidas cumprimentando, e já me conduzindo a uma sala. Veio junto com ele um cheiro bom, uma cor, seus cabelos claros bem penteados, olhos verdes, semblante tranquilo, vestia uma blusa azul turquesa, uma calça cinza, tinha um olhar sereno de quem sabe ouvir.
Senti-me a vontade
-Em que posso te ajudar?
-Pois então, estou metida em uma enrascada, não sei se pode me ajudar. E foi falando contando a estória que já estava na ponta da língua. Atento, foi pegando os papéis e escrevendo.
-Vamos precisar destes documentos, eu sei o que você está passando, mas vamos resolver.
-Teve uma crise de choro estava sufocada, pediu desculpas, ele, disse: imagina, fica tranquila. Ela estava diante de um estranho e se sentia como há muito tempo não sentia: protegida, valorizada. Ele estava ali inteiro.
Quem está perto às vezes não é quem dorme com você, muito menos quem te pariu, ou é seu sangue.
Tenho pensado sobre a família e seus horrores, quanto maior mais confusões, invejas, discórdias, quando é dia de festa todos botam a melhor roupa e tiram aquelas fotos felizes e são por uns minutos, depois tem que tirar as roupas, voltar para seus esqueletos. Estava só há anos. Invisível!
O dia foi cheio.
: eu nunca tinha comprado nada, precisava de uma casa, estava grávida então comecei procurar, tinha o fundo de garantia e um pouco de dinheiro que juntei, escolhi o apartamento e uma casinha lá no jardim Canadá, o gerente do banco disse que o apartamento estava tudo ok, que eu teria que fechar logo que seria uma ótima oportunidade, sentei em uma mesa dentro da caixa econômica Federal com uma senhora de mais de 70 anos a vendedora, seu advogado e o gerente da Caixa Econômica Federal, me explicaram que estava tudo em ordem, que o formal de partilha estava ok, que no outro dia eu passaria no escritório do advogado e pegaria o documento do formal de partilha e registraria o imóvel, o dinheiro do fundo de garantia e do empréstimo ficaria retido na conta da vendedora até que o registro fosse feito, daria mais um pouco em dinheiro e assinaria no escritório do advogado um contrato de compra e venda, sim, assinei, é a Caixa Econômica, confiei, no outro dia fui ao escritório do advogado, assinei o contrato de compra e venda, paguei em dinheiro uma parte da entrada. O advogado me disse que o boy atrasou o papel não chegou, que eu ligasse durante a semana para pegar o documento, fiquei ligando, ele me enrolando, fui lá algumas vezes e nada só desculpas, quando fui ao fórum, descobri que o apartamento era embargado, o formal de partilha não tinha saído, a Dona que vendeu não tinha autorização dos filhos, e ainda tinha um menor incapaz. Aí continuou o tormento, fui à defensoria pública, e outros meios e advogados, todos me diziam que era um problema social, que eu não iria conseguir registrar, fiquei doente de depressão, perdi o emprego, parei de pagar tudo, até o condomínio. Foram 11 anos de sofrimento, agora que tudo esta em ordem, eles querem que eu assine para liberar o dinheiro para a vendedora e liberar a caixa Econômica, quem é que vai pagar minhas dívidas? E minha saúde, perdas e danos? Muitas noites sem dormir...

Fez o mesmo caminho de volta, porém, com mais pressa de colocar tudo em ordem e com um brilho de esperança na ponta do nariz. Avistou uma loja em liquidação, na vitrine um vestido chamou atenção, era azul turquesa.
Quanto custa aquele vestido?
149,00. Está na promoção.
Posso experimentar?
Só tem aquele que está no manequim, quer que tire?
Sim.
O vestido caiu-lhe feito luva.

 ( inacabado)

Helena Soares-06/07/08/01/2014
Cia.h3
teatroh3.blogspot.com

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A luz no meio da sala

As lembranças haviam sumido, ouvia um som embaçado, era quase um silêncio, tentava decifrar coisas que aquele rumor lembrasse,
dera de uma hora para outra de só ouvir... As pessoas eram as mesmas, faziam o de sempre, se a ignoravam era comum, mas algo diferente tinha acontecido. Soprou devagar o dorso da mão, sim, havia sensibilidade. Seus olhos foram lambendo os lugares, cada detalhe lhe demorava uma vida, as sombras produziam formas que nunca tinha visto antes, sua atenção estava num estado de prontidão real e imediata, tudo seria criado a partir de agora, o mundo estava começando, e era belo, teria que acostumar com aquele rumor, aquele vazio, aquele silêncio. Não, seria diferente, não acostumaria, só assim poderia enxergar e criar tantas coisas, o prazer que sentia tudo fresco, novo, mais intenso: as cores, as formas, o gosto, o contato, os sons. Bastava mudar a direção do olhar e configurava uma nova possibilidade criativa, estava com uma satisfação tão grande e se perguntava se precisava de tantas coisas, tinha as por perto na casa, dava para vivenciar muitas vidas realizando imaginações, compunha misturando sombras e elementos reais, aqueles quadros logo eram suprimidos por outros já que os sons e a luz eram naturais e mutáveis, o dia é infinitas composições, o sol em movimento, as coisas, sim, ficavam paradas esperando estáticas pela intervenção do cosmo, um cenário perfeito.  A impressão do espetáculo, os técnicos subindo e descendo escadas, ajustando as luzes, trocando as gelatinas, afinando, suando, preparando... A diferença é que se podia interferir, interagir, acontecia de diferentes formatos, nada era definitivo, ia se fazendo, modificando de acordo com a luz que entrava na sala.
 Quase na hora do almoço ligou o rádio, estava tocando Arnaldo Antunes, ‘’A casa é sua’’. Fechou os olhos e dançou com tudo que tinha de corpo, ocupou o pequeno espaço da cozinha, engolia todas as palavras da música, a voz, tudo sensações... Dentro e fora. Ao abrir os olhos a composição anterior na sala já não era, o sol tinha subido, restava uma sombra, nem uma fresta, tudo ali parado esperando por ela e o sol, o barulho tinha mudado, agora se houve até buzinas. Lavou as mãos, catou o feijão, colocou já com tempero para cozinhar, o arroz é ensopadinho, omelete acebolado, salada de pepino descascadinho, repolho refogado e para sobremesa uma salada de frutas refrescantes, está um calor danado. As coisas foram ficando gostosas, o dia foi passando assim como quem quer cheiro no cangote até a nuvem em forma de coração virar um tubarão faminto tentando pegar um passarinho que acabou de cruzar o céu na maior tranquilidade.

Helena Soares - BH - 03\01\2014

domingo, 29 de dezembro de 2013

http://www.editorakazua.com.br/vem-ai/helena-soares/
http://www.editorakazua.com.br/entrevista-helena-soares.../

domingo, 3 de novembro de 2013

A__Travessando
Verdades e mentiras



...Experimento... Performance...rascunho.
Estamos vivendo sobre o prisma da mentira: a constituição assegura-nos direitos, e o que vivemos é um esculacho em relação ao respeito e dignidade ao ser humano e a vida no planeta.  Somos escravos?
Apanhamos e vivemos sobre condições degradantes e se reivindicamos somos retalhados com truculência, arrogância etc. Somos violentados em nossas escolhas. As mulheres continuam sendo violentadas e assassinadas, muitas vezes pelo próprio marido. E as leis servem para quê? Estamos avançando? Daqui para frente como vai ser?
A__Travessando faz uma reflexão sobre essas verdades e mentiras e como estamos nos vendo daqui para frente. Interage com diversas formas de linguagens, utilizando a poesia, dramaturgia, vídeo e espaço como lugar de pensar dançando.
O Objetivo é produzir reflexões sobre temas que nos aproximam, fortalecendo nosso desejo de viver, lutar pelos nossos direitos e dignidade, e produzir debates sobre essas verdades e mentiras.

Dramaturgia
O Texto: criação e dramaturgia de helena soares
A__Travessando
Verdades e mentiras

Em Off uma mulher faz um discurso inflamado e extremamente emotivo sobre os nossos direitos  garantidos pela constituição e direitos humanos. E imediatamente ela é agredida. Ouve se gritos.
Ela: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos, e devem agir em relação umas as outras com espírito de fraternidade. Sem distinção de qualquer espécie, seja raça, cor, língua, religião ou qualquer outra condição. todos tem direito a vida, a liberdade, e a segurança pessoal.
Ninguém será mantido em escravidão. Ninguém será submetido à tortura, a tratamento e castigo cruel desumano e degradante!
Deixa chegar o sonho, preparem uma avenida que a gente vai passar!
Ninguém será arbitrariamente preso, detido, ou exilado!
(Ela é atacada, agredida pelos policiais truculentos).
Ela: Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! (quebra uma garrafa de vidro) Me larga! Tira essas mãos sujas de cima de mim! (mais vidros quebrando) Sem violência! Eu sou artista, mãe de família, trabalhadora! 

Entra agora em cena: Ela observa, mostra uma folha em branco para o público, dança com o espaço, vai até a terra e procura por algo que faça sentido: a terra é o lugar da esperança, da pergunta, do começo.

Cenário: Um monte de terra e folhas brancas
Uma projeção do vídeo: o gado e ópera cantada por Maria Callas.
Alguns objetos de cena, que estão escondidos dentro da terra, flores marcando cada espaço.
 (ela observa)

 Ela: O mundo tinha acabado mesmo. Eu outra. O corpo querendo descanso para recomeçar ou terminar.
Tinha vontades: comer feijão, arroz, beterraba e banana.
O tempo era outro. Redescobrindo tudo... Aprendendo a gostar...De cachorro, planta, nuvem...
Primeiro foi por que não tinha dinheiro, agora, é por que não tem dinheiro.
Seguir a gente segue, o que fica por fazer dói.
As coisas são caras meu caro! 
Dinheiro é cara ou coroa!
Ou se compra a corda
Ou se acorda comprando
O poema está acima disso tudo, escorrega pelo corpo querendo sair nos dedos.
Finge estar cansado para deitar no pensamento, depois corre água no riacho das veias em direções múltiplas, expandindo geografias nos sentidos.
O poema pari a gente de novo
Ri matreiro das asas ensaiando o voo, depois, fica em silêncio olhando...
                                -§-
Esvaziar-se das coisas... pacientemente apreciar velas acesas
Os sons atravessam o inevitável sentido. A vida acontecendo...
gosto de gente, cachorro, coisas...

Foi na cútis o afeto do vento
É outono, sinto-me em casa.
Não tenho pressa. Se tem, tem se não tem, que que tem?
É outono, não tenho pressa. 
                -§-
O gado ruminando debaixo da lua
Os cabelos da cabeça crescendo
Meu desejo de ser toma partido no seu corpo
Beija e voa em direção ao néctar
Amar tem que ser no tempo certo para não perder a muda.
§
Texto falado mais direto com o público

A cada 2 minutos cinco mulheres são espancadas
A cada 2 horas uma mulher é assassinada
Os agressores são parentes, maridos, namorados, ex-companheiros- homens
De cada 3 pessoas atendidas no SUS por razão de violência doméstica ou sexual 2 são mulheres
As mulheres são chamadas de...(estala os dedos) se mostram tudo, se não mostram nada, se apanham caladas, se apanham gritando, se denunciam, se não denunciamo,  As mulheres são chamadas de... Ocupamos o 7º lugar em vítimas de violência doméstica, maus tratos e assassinatos contra  mulheres, crianças e jovens.
Nossa população carcerária, a maioria são nossos filhos de 18 a 34 anos, pobres, negros e sem instrução. tem sido assim: Uso da perpetuação da ignorância como instrumento de dominação e o medo como mecanismo de controle social.
Todos pensando igual e ai de quem pense diferente!
Mas nós mulheres pensamos diferente sim, nós somos um tipo de gente que vê no caos a criação, que vê no escombro e na escuridão um caminho possível.

-§-
(Na terra)

Acabrunhada deu para não olhar da janela
Está imóvel na árvore, camuflada como uma Coam.
A noite ela solta seu canto de morte
(pia como uma coam)
A cidade treme assombrada
quem ainda é vivo trata de benzer-se
Se ainda é mundo, céu, quiçá inferno.
Ninguém sabe que ela dói
Letras jorram de sua respiração formando palavras ao ar
Do alto, flutuantes frases se soltam pelos vazios entre prédios.
Ela gesta poesia
Ela pari poesia
ela é poesia
(Espalhando terra sobre folhas brancas, produzindo barulho e palavras)

Concha caralho cuscuz, curnicha calcinha cueca, cálidas Caladas Casas, Comida, Caídas Calças Calções, Curta Cama Carinhosamente, Caramujo Cominho Comida, Cautelosamente Cante, Caramba Catapora Caxumba, Comprimento Cruzes! Crime Cálice!
 -§-
(Vai chamando as pessoas para a cena)
Onde você mora?
Aqui tudo virou de cabeça para baixo depois que ouvi o sonoro timbre de tua voz
Me chama! Diz que sou eu a personagem de tua ciranda!
Me beija! Deixa-me passar a mão em teus olhos de estrelas
Deixa-me dançar mais vezes na lua de teus acordes
Vem! muda o mundo comigo?
Onde você mora? Deixa eu te ver, olhar, saber.
Deixa tudo virar... Vem! Muda o mundo comigo?
Agora sou eu que grito do alto da cidade meus temperos e destemperos
Hei! Onde você mora?
Estamos todos perdidos nesta selva de prédios
Eu sei que você me ouvi
Eu sei que você me olha, de longe.
Gemendo, chorando, pulsando, gritando.
Sorrindo, gargalhando, masturbando
Eu por dentro
Eu distante
Eu com medo
Deixa eu te ver, olhar, saber.
Vem! Muda o mundo comigo?
Onde você mora?
-§-
... Daqui pra frente é o começo...
Estou abrindo os olhos
Me olhando... Me pegando...
Estou diferente!
Começando outra eu
Estou tentando gostar
Aprendendo ler cada rabisco na pele

Estou muito marcada
Tem letras em todas as línguas
Rios que foram interrompidos
Flores esquecidas
Noites mal dormidas

Está tudo registrado em todas as línguas
...Daqui pra frente é o começo...
Estou abrindo os olhos

Helena Soares – 27-07-2013
Cia.h3
Teatroh3.blogspot.com
Cel: 31 92180075
e-mail: helenasoares.s@gmail.com





Helena Soares
teateoh3.blogspot.com
Cia.h3
Fotos de apresentação feita em São mateus E.S, no 8º encontro de arte em comunicação do projeto Araçá em outubro de 2013.

terça-feira, 8 de outubro de 2013


A__Travessando
...Experimento cênico...Performance...Processo.

Verdades e mentiras





...Experimento... Performance...rascunho.
Estamos vivendo sobre o prisma da mentira: a constituição assegura-nos direitos, e o que vivemos é um esculacho em relação ao respeito e dignidade ao ser humano e a vida no planeta.  Somos escravos?
Apanhamos e vivemos sobre condições degradantes e se reivindicamos somos retalhados com truculência, arrogância etc. Somos violentados em nossas escolhas. As mulheres continuam sendo violentadas e assassinadas, muitas vezes pelo próprio marido. E as leis servem para quê? Estamos avançando? Daqui para frente como vai ser?
A__Travessando faz uma reflexão sobre essas verdades e mentiras e como estamos nos vendo daqui para frente. Interage com diversas formas de linguagens, utilizando a poesia, dramaturgia, vídeo e espaço como lugar de pensar dançando.
O Objetivo é produzir reflexões sobre temas que nos aproximam, fortalecendo nosso desejo de viver, lutar pelos nossos direitos e dignidade, e produzir debates sobre essas verdades e mentiras.

Dramaturgia
O Texto: criação e dramaturgia de helena soares
A__Travessando
Verdades e mentiras

Em Off uma mulher faz um discurso inflamado e extremamente emotivo sobre os nossos direitos  garantidos pela constituição e direitos humanos. E imediatamente ela é agredida. Ouve se gritos.
Ela: Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos, e devem agir em relação umas as outras com espírito de fraternidade. Sem distinção de qualquer espécie, seja raça, cor, língua, religião ou qualquer outra condição. todos tem direito a vida, a liberdade, e a segurança pessoal.
Ninguém será mantido em escravidão. Ninguém será submetido à tortura, a tratamento e castigo cruel desumano e degradante!
Deixa chegar o sonho, preparem uma avenida que a gente vai passar!
Ninguém será arbitrariamente preso, detido, ou exilado!
(Ela é atacada, agredida pelos policiais truculentos).
Ela: Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! (quebra uma garrafa de vidro) Me larga! Tira essas mãos sujas de cima de mim! (mais vidros quebrando) Sem violência! Eu sou artista, mãe de família, trabalhadora! 

Entra agora em cena: Ela observa, mostra uma folha em branco para o público, dança com o espaço, vai até a terra e procura por algo que faça sentido: a terra é o lugar da esperança, da pergunta, do começo.

Cenário: Um monte de terra e folhas brancas
Uma projeção do vídeo: o gado e ópera cantada por Maria Callas.
Alguns objetos de cena, que estão escondidos dentro da terra, flores marcando cada espaço.
 (ela observa)

 Ela: O mundo tinha acabado mesmo. Eu outra. O corpo querendo descanso para recomeçar ou terminar.
Tinha vontades: comer feijão, arroz, beterraba e banana.
O tempo era outro. Redescobrindo tudo... Aprendendo a gostar...De cachorro, planta, nuvem...
Primeiro foi por que não tinha dinheiro, agora, é por que não tem dinheiro.
Seguir a gente segue, o que fica por fazer dói.
As coisas são caras meu caro! 
Dinheiro é cara ou coroa!
Ou se compra a corda
Ou se acorda comprando
O poema está acima disso tudo, escorrega pelo corpo querendo sair nos dedos.
Finge estar cansado para deitar no pensamento, depois corre água no riacho das veias em direções múltiplas, expandindo geografias nos sentidos.
O poema pari a gente de novo
Ri matreiro das asas ensaiando o voo, depois, fica em silêncio olhando...
                                -§-
Esvaziar-se das coisas... pacientemente apreciar velas acesas
Os sons atravessam o inevitável sentido. A vida acontecendo...
gosto de gente, cachorro, coisas...

Foi na cútis o afeto do vento
É outono, sinto-me em casa.
Não tenho pressa. Se tem, tem se não tem, que que tem?
É outono, não tenho pressa. 
                -§-
O gado ruminando debaixo da lua
Os cabelos da cabeça crescendo
Meu desejo de ser toma partido no seu corpo
Beija e voa em direção ao néctar
Amar tem que ser no tempo certo para não perder a muda.
§
Texto falado mais direto com o público

A cada 2 minutos cinco mulheres são espancadas
A cada 2 horas uma mulher é assassinada
Os agressores são parentes, maridos, namorados, ex-companheiros- homens
De cada 3 pessoas atendidas no SUS por razão de violência doméstica ou sexual 2 são munheres
As mulheres são chamadas de...(estala os dedos) se mostram tudo, se não mostram nada, se apanham caladas, se apanham gitando, se denunciam, se não denunciamo,  As mulheres são chamadas de... Ocupamos o 7º lugar em vítimas de violência doméstica, maus tratos e assassinatos contra  mulheres, crianças e jovens.
Nossa população carcerária, a maioria são nossos filhos de 18 a 34 anos, pobres, negros e sem instrução. tem sido assim: Uso da perpetuação da ignorância como instrumento dominação e o medo como mecanismo de controle social.
Todos pensando igual e ai de quem pense diferente!
Mas nós mulheres pensamos diferente sim, nós somos um tipo de gente que vê no caos a criação, que vê no escombro e na escuridão um caminho possível.

-§-
(Na terra)

Acabrunhada deu para não olhar da janela
Está imóvel na árvore, camuflada como uma Coam.
A noite ela solta seu canto de morte
(pia como uma coam)
A cidade treme assombrada
quem ainda é vivo trata de benzer-se
Se ainda é mundo, céu, quiçá inferno.
Ninguém sabe que ela dói
Letras jorram de sua respiração formando palavras ao ar
Do alto, flutuantes frases se soltam pelos vazios entre prédios.
Ela gesta poesia
Ela pari poesia
ela é poesia
(Espalhando terra sobre folhas brancas, produzindo barulho e palavras)

Concha caralho cuscuz, curnicha calcinha cueca, cálidas Caladas Casas, Comida, Caídas Calças Calções, Curta Cama Carinhosamente, Caramujo Cominho Comida, Cautelosamente Cante, Caramba Catapora Caxumba, Comprimento Cruzes! Crime Cálice!
 -§-
(Vai chamando as pessoas para a cena)
Onde você mora?
Aqui tudo virou de cabeça para baixo depois que ouvi o sonoro timbre de tua voz
Me chama! Diz que sou eu a personagem de tua ciranda!
Me beija! Deixa-me passar a mão em teus olhos de estrelas
Deixa-me dançar mais vezes na lua de teus acordes
Vem! muda o mundo comigo?
Onde você mora? Deixa eu te ver, olhar, saber.
Deixa tudo virar... Vem! Muda o mundo comigo?
Agora sou eu que grito do alto da cidade meus temperos e destemperos
Hei! Onde você mora?
Estamos todos perdidos nesta selva de prédios
Eu sei que você me ouvi
Eu sei que você me olha, de longe.
Gemendo, chorando, pulsando, gritando.
Sorrindo, gargalhando, masturbando
Eu por dentro
Eu distante
Eu com medo
Deixa eu te ver, olhar, saber.
Vem! Muda o mundo comigo?
Onde você mora?
-§-
... Daqui pra frente é o começo...
Estou abrindo os olhos
Me olhando... Me pegando...
Estou diferente!
Começando outra eu
Estou tentando gostar
Aprendendo ler cada rabisco na pele

Estou muito marcada
Tem letras em todas as línguas
Rios que foram interrompidos
Flores esquecidas
Noites mal dormidas

Está tudo registrado em todas as línguas
...Daqui pra frente é o começo...
Estou abrindo os olhos

Helena Soares – 27-07-2013
Cia.h3
Teatroh3.blogspot.com
Cel: 31 92180075
e-mail: helenasoares.s@gmail.com
Apresentação feita em Uberlândia M.G no encontro de MTG -setembro 2013